Nas religiões de matrizes africanas, o corpo não é descartável. Ele é Ará, morada do Orí (cabeça) e veículo do Axé recebido em vida.
Quando alguém é iniciado, o corpo passa por pactos espirituais:
• recebe elementos da terra (Ilê/Onílẹ̀),
• recebe força dos Orixás,
• recebe axé que não se apaga com a morte.
Por isso, o destino do corpo importa espiritualmente.
No Candomblé (e em outras tradições africanas):
A Terra é Mãe. Onílẹ̀ recebe aquilo que dela saiu.
Enterrar o corpo significa:
• devolver o Ará à terra que o sustentou,
• permitir que o axé retorne ao solo sagrado,
• manter o equilíbrio entre Ayé (mundo físico) e Orun (mundo espiritual).
A cremação rompe esse ciclo.
O fogo:
• consome bruscamente o corpo,
• dispersa o axé sem retorno à terra,
• quebra o fundamento de continuidade entre ancestralidade e chão.
Por isso, não é questão estética, ecológica ou moderna. É cosmologia africana.
O Orí segue seu caminho espiritual. Mas o corpo tem compromisso com a Terra.
No iniciado:
• o corpo foi consagrado,
• recebeu elementos vivos,
• participou de ritos que o ligam ao chão.
Queimar esse corpo é, simbolicamente, romper um pacto.
Sim, existe correlação — e isso não é coincidência.
A Bíblia nasce em território africano e afro-asiático, herdando conceitos muito mais antigos do que o cristianismo institucional.
Veja:
“Do pó vieste, ao pó retornarás.”
(Gênesis 3:19)
Isso é pensamento africano, não europeu.
No mundo antigo:
• hebreus enterravam seus mortos,
• egípcios (africanos) preservavam o corpo porque ele era sagrado,
• a cremação era vista como ruptura, não como honra.
A ideia de cremação como algo “normal” é moderna e ocidental, não ancestral.
Nas tradições africanas:
• o morto vira ancestral,
• o ancestral mantém vínculo com a terra,
• a terra guarda, sustenta e devolve axé à comunidade.
Sem corpo entregue à terra, esse elo se fragiliza
.
Por isso, dizemos no fundamento:
“O iniciado não morre, ele retorna.”
E retorno não se faz em cinzas.
Se faz no ventre da Mãe Terra.
Isso não é julgamento de quem escolhe cremação fora do fundamento.
Mas dentro das religiões de matrizes africanas, o iniciado tem regra, pacto e compromisso.
Tradição não se adapta ao gosto moderno.
Tradição se preserva.
Asé
Lufãn Oyin Omi Ala Tunde ( André Filho )




0 Comentários