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Mãe Teté de Oya ,A mulher que atravessou o século sustentando o vento!


 Há mulheres que pertencem ao seu tempo, e há aquelas que pertencem à história, Juliana da Silva Baraúna, conhecida no Àṣẹ como Mãe Teté (Oyá Tumkecy), nasceu em Salvador, em 19 de junho de 1916, cresceu num ambiente em que o Candomblé não era escolha estética nem identidade pública: era fundamento doméstico, ética de vida, disciplina silenciosa. Antes de qualquer título religioso, foi educada dentro de uma lógica iorubana que organizava o mundo pela ancestralidade, pelo respeito à hierarquia e pela consciência do invisível.


Sua formação espiritual ocorreu no interior da Casa Branca do Engenho Velho, território matricial do candomblé ketu no Brasil, ali, a tradição não se ensinava por discursos, ensinava-se pelo tempo, a jovem iniciada aprendeu o peso do silêncio, o valor do serviço e a pedagogia da espera. Tornar-se iaô não era alcançar um posto; era aceitar um processo.

Do ponto de vista antropológico, essa etapa é central: o candomblé forma sujeitos pela experiência ritual prolongada, o conhecimento não é informação acumulada, é transformação incorporada, Mãe Teté pertenceu a uma geração moldada pela convivência direta com sacerdotisas formadas ainda sob forte memória africana. Ela foi elo entre séculos.

Ao longo do século XX, o Brasil assistiu a mudanças políticas profundas, ditaduras, urbanização acelerada, discursos de modernidade, enquanto isso, dentro dos terreiros, mantinha-se uma outra temporalidade, Mãe Teté cresceu num contexto em que o candomblé era alvo de repressão policial e de estigmatização social, onde, ermanecer iniciada era também um gesto de resistência.

Quando assumiu funções de responsabilidade na hierarquia da Casa Branca, não representava apenas ascensão interna, representava confiança coletiva, em tradições nagô, autoridade não se improvisa: é reconhecida pela comunidade após décadas de coerência ritual.

Sua vida, porém, não se restringiu ao espaço sagrado, como tantas mulheres negras de sua geração, sustentou-se pelo trabalho cotidiano, bordando, preparando alimentos, circulando pela cidade com tabuleiros e saberes. A economia informal e o universo litúrgico nunca foram mundos separados; ambos eram expressões da mesma autonomia feminina que estruturou os terreiros baianos.

Na década de 1970, ao mudar-se para o Rio de Janeiro e fundar seu próprio espaço religioso em Guadalupe, realizou algo profundamente significativo: transplantou memória sem romper raiz, o Àṣẹ da Casa Branca encontrou novo chão, nova geografia urbana, outro cenário racial, não era migração simples, era expansão de linhagem.
Em 1983, ao completar cinquenta anos de sacerdócio, foi homenageada publicamente, inclusive com reconhecimento na Câmara dos Deputados por iniciativa de Abdias do Nascimento, o fato simboliza algo maior do que a homenagem individual: marca a entrada da tradição dos orixás no espaço institucional do Estado brasileiro, não como folclore, mas como expressão religiosa legítima.

No mesmo período, participou de movimentos que defendiam a autonomia teológica do candomblé frente ao sincretismo imposto historicamente, essa posição revela maturidade histórica, não bastava sobreviver; era preciso redefinir narrativas.

Mãe Teté faleceu no Rio de Janeiro, em 2 de março de 2006, mas algumas trajetórias não terminam, tornam-se referência. Historiograficamente, ela integra a linhagem de mulheres que garantiram continuidade à matriz ketu no Brasil.

Antropologicamente, representa o modelo de sacerdotisa formada pela disciplina do tempo, pela ética do cuidado e pela responsabilidade comunitária, humanamente, foi mulher que trabalhou, ensinou, suportou preconceitos e ainda assim preservou dignidade ritual.

Se Oyá governa as transformações, talvez não seja coincidência que sua filha tenha atravessado quase noventa anos de mudanças sociais sem abandonar o sua ancestralidade, sua vida demonstra que tradição não é rigidez, é permanência com consciência.

No dia 2 de março, lembrar Mãe Teté não é repetir biografia. É reconhecer que o Candombléi brasileiro se construiu nos ombros de mulheres como ela, ela não buscou protagonismo, mas tornou-se referência e enquanto houver vento, haverá memória.

Àṣẹ oooo

Memórias do Candomblé - História, Cultura e Sociedade.

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